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domingo, 27 de março de 2011

Café caseiro


Foto: Manuela Lins
O último encontro ocorreu, pela primeira vez, não num café, mas na casa de Manu, Bá e Anna. Chance de conferir a barista que existe dentro das CCListas! A encarregada, nesta oportunidade, foi Manu... bom, eu fiquei bastante satisfeita com meu capuccino.
A obra desta semana foi Felicidade Conjugal, de Tolstói. Literatura russa foi novidade para todas... e nos surpreendeu. Creio que falo pelo grupo presente ao afirmar que não esperava por uma mulher como narradora, e a delicadeza com que os sentimentos femininos foram expostos. Maiores detalhes nos textos a serem publicados em seguida...

Aproveitando o aconchego proporcionado pelo local, discutimos também questões práticas sobre o grupo. Ajustes necessários para a continuidade da proposta do CCL. Após avaliar algumas dificuldades, concordamos em fazer discretas mudanças que em breve poderão ser notadas no site e outras no formato dos encontros. Logo teremos mais atualizações das avaliações dos locais por nós visitados, e esperamos com isso ajudar na escolha de quem aprecia um bom café em um lugar agradável em nossa cidade.

Esperamos que apreciem os textos e que eles incentivem a leitura dessas obras que temos elegido. Pegue seu lugar, e dê um gole!

Próximo encontro: Dia: 09/04/11
Tema: Cinema
Livro: O Clube da Felicidade e da Sorte
Indicação: Bárbara

quarta-feira, 2 de março de 2011

Oficina do Café e calor

Convenhamos que escolher um café na Rosa e Silva em dia de jogo do Náutico não foi a escolha mais acertada (assumo). Apesar da alegria de mais uma vitória do Timbu (2x0 contra o Araripina), o trânsito enfrentado não foi nada animador. Não sei se o calor era da torcida, o fato é que o local escolhido (novamente minha culpa) não favoreceu um encontro tranquilo e confortável, considerando a temperatura e pouco espaço do local. Iniciamos a reunião com certo atraso, e concordamos em sermos objetivas em nossas pontuações.
A obra desta quinzena foi Uma Casa Assombrada e Outros Contos, da escritora inglesa Virginia Woolf. O livro é uma coletânea de contos da autora (alguns com publicação póstuma) e organizada por seu marido. Cada integrante trouxe suas leituras e impressões sobre o estilo da autora, e todas concluíram que o hermetismo e o fluxo de consciência são características fortemente impressas em alguns desses contos. Mesmo diante da dificuldade (aqui falo por mim) para entender pontos de seu trabalho, concordamos sobre a importância de visitarmos escritores e obras de indiscutível relevância para a literatura, como é o caso de Woolf.
Próximo encontro: Dia: 12/03/11
Tema: Literatura
Livro: A Felicidade Conjugal, de Leon Tolstói
Indicação: Ana Carla

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Quando a maior obra é reconhecer o gênio no outro

“Honrar um pensador não é elogiá-lo nem interpretá-lo, mas discutir sua obra, mantendo-o vivo, e demonstrando em ato que ele desafia o tempo e mantém sua relevância.”

(Cornelius Castoriardis)

Em nosso primeiro encontro, comentamos como foi feliz a escolha de Cartas a um jovem poeta, já que se tratava da compilação de conselhos do já então famoso Rainer Maria Rilke para um aspirante a escritor.

Franz X. Kappus diz, em sua introdução a esta obra (lemos a publicada pela L&PM Pocket), que “quando fala alguém grandioso e único, os pequenos têm de se calar”. Porém, nós somos pequenas e pretensiosas, o que impulsionou o nascimento deste coletivo.

A proposta de visitarmos diferentes obras, discuti-las e expormos nossas inferências sobre elas em textos, animou a todas, mas suscitou (aqui falo por mim) uma preocupação: e como fazer nascer este texto?

O interessante neste livro – dentre outros aspectos mais importantes – foi a opção de publicar-se apenas as respostas de Rilke, o que nos proporciona a sensação de que o poeta se dirige diretamente a nós, agora.

Estas cartas datam do início do século XX, no entanto, nos trazem reflexões atemporais, mostrando a relevância citada por Castoriardis (embora se referisse mais especificamente a políticos e estadistas – aqui transporto para a arte), através dos tempo deste artista-pensador. Evidencia também sua maturidade artística e emocional.

Esta maturidade à qual me refiro, creio que pode ser exemplificada, principalmente, por este entendimento (1ª carta) de que a resposta para as dúvidas e inquietações deve ser encontrada dentro de nós mesmos. O pressuposto para o desenvolvimento artístico, e também humano, seria a busca pelo autoconhecimento. Para isto, faz-se necessário um mergulho dentro de nós, investigando nossas motivações, a origem de nossos desejos e o reconhecimento do que é realmente vital para nós. Destas descobertas, pode resultar, inclusive, a renúncia ao que antes nos parecia imprescindível para viver.

Rilke fala em alguns trechos de suas cartas sobre a importância da paciência para “tudo que não está resolvido”(4ª carta). E não é exatamente assim na vida? Está aí, mais uma vez, ressaltado o caráter mimético da arte. Afinal, assim como um pintor precisa se demorar ao estudar seu modelo para traduzi-lo em sua obra, precisamos nós também nos demorar sobre o outro, sobre o mundo e sobre nós mesmos para interpretar de forma realista a existência. Esta é uma tarefa que só se obtém, com êxito, pela paciência.

Outra condição necessária, destacada pelo poeta, para o fazer artístico – e, mais uma vez podemos estender para a vida – é a solidão.

Ele chama a solidão de não-entendimento. De fato, não é um tipo de solidão que sentimos quando determinados fatos ocorrem, ou quando nos deparamos com certas atitudes do outro que são para nós incompreensíveis?

Quando temos ideais e sentimentos diferentes dos que nos cercam, isto é solidão. Mas esta também é a chance de descobrirmos nossa singularidade e interpretar o mundo de forma única e criativa, e talvez até produtiva e transformadora.

Em sua sétima carta, Rilke lembra que estes elementos (paciência e solidão) são difíceis de se alcançar, mas que nem por isso deve-se abrir mão deles. Segundo ele, “devemos nos aferrar ao que é difícil”.

Dentre outras coisas, ele diz que o amor é bom porque é difícil. Ainda: que o amor é a preparação para tudo, que é preciso aprendê-lo e que os jovens não estão prontos para ele. Amar, continua, é uma oportunidade sublime para amadurecermos, pois exige entrega, doação ao outro. Porém, até aí, fala do amor como sentimento. Adiante, afirma que a “comunhão” deveria ser o último passo. Chega a ser por um lado divertida e por outro triste sua visão do porquê os jovens devem postergar a consumação deste amor:

“É aí que os jovens erram (...) gravemente (...) se atiram uns para os outros quando o amor vem, derramando-se da maneira como são, em todo seu desgoverno, na desordem, na confusão (...)

Então cada um se perde por causa do outro e perde o outro (...) troca-se a aproximação e a fuga de coisas quietas, (...) por um desespero infrutífero do qual nada pode resultar; nada mais do que um pouco de náusea, desapontamento e pobreza (...)”

Uau! Quem não reconhece um pouco disto em sua história? Mas afinal, por que devemos nos aferrar ao que é difícil? Ora, o que as facilidades nos ensinam além da comodidade, imaturidade e de nos tornar mimados? São justamente as coisas difíceis que nos proporcionam a chance de crescermos, evoluirmos! As dificuldades nos impulsionam/obrigam a sairmos do estado de inércia, nos acorda para a vida.

Nesta mesma carta, Rilke reproduz um soneto de Kappus. Sem querer ser injusta e leviana ao julgar o trabalho do jovem oficial(sequer estou habilitada para isso), não me pareceu grande coisa. Talvez me falte sensibilidade ou apuro para reconhecer seu valor, ou quem sabe, a tradução tenha lhe roubado a essência, o fato é que temos que reconhecer ter sido uma atitude sábia de sua parte publicar estes registros. Foi ele que permitiu que tivéssemos acesso aos valiosos pensamentos daquele artista (quase um manual para quem quer escrever) e sua lição de generosidade e humildade (afinal, mesmo sendo tão famoso e estando com sua saúde abalada, achou tempo, boa vontade e PACIÊNCIA para responder um desconhecido). Que essas constatações sejam um convite para conhecermos sua obra e deixar que ela nos inspire.

O mundo estava no rosto da amada

O mundo estava no rosto da amada -
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.


CURIOSIDADES:

  • A tradução desta obra foi feita por Pedro Sussekind, mestre e doutor em filosofia, pesquisador do Departamento de Literatura Comparada da Freie Universität, em Berlim. Além de trabalhos de Rilke, traduziu também obras de diversos autores de língua alemã, como Goethe, Nietzsche e Schopenhauer. Rilke foi traduzido, também, por Manuel Bandeira e Cecília Meireles.

  • O poeta foi amigo e secretário de Auguste Rodin, com quem aprendeu algumas lições sobre apreciação da arte, o que influenciou seu trabalho.

MÁXIMAS A SE CONSIDERAR:

"Quero viver como se o meu tempo fosse ilimitado. Quero me recolher, me retirar das ocupações efêmeras. Mas ouço vozes, vozes benevolentes, passos que se aproximam e minhas portas se abrem..."

“... a maioria dos acontecimentos é indizível.”

“Procure o fundo das coisas; ali a ironia nunca chega.”

“... quanto aos assuntos mais profundos e mais importantes, estamos indizivelmente sozinhos...”


Leu nossos textos? Nos dê o prazer de ler seu comentário. Citando uma última vez o autor de Carta a um jovem poeta:

“... é importante e uma experiência inteiramente nova encontrar um trabalho próprio escrito com a letra de outra pessoa.” ;)