Mostrando postagens com marcador A Estrada. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador A Estrada. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Percorrer a estrada que se compartilha


“ A verdadeira moral zomba da moral.”
Blaise Pascal


Numa típica cidade americana, ocorre - sem explicação ou detalhes - uma catástrofe natural que parece ter assolado toda a humanidade. Com escassez de água, comida e outros recursos, os seres humanos são levados ao limite.
A Estrada narra o desastre geral e o drama pessoal causados pelo caos decorrente desta tragédia. Os poucos personagens são agentes e vítimas de uma mudança social que os leva – e a nós também – a questionar valores e crenças estabelecidos em tempos de ordem e que agora parece terem sido esvaziados de sentido.
A luta do pai para manter seu filho alimentado, aquecido e seguro mesmo diante de tanto horror e miséria, contrasta com a aparente apatia e covardia da mãe, que prefere se deixar morrer a se sujeitar ao que chama de subexistência ou de ficar à mercê da atrocidade cometida por alguns grupos.
Pode-se, a partir dessas diferentes posturas, refletir, de modo mais abrangente, acerca da moral. Poderíamos começar diferenciando a moral estabelecida da moral pessoal, sendo a primeira o conjunto de regras determinadas para a harmonia do grupo, enquanto a segunda pode ser entendida como a reflexão crítica e singular que o indivíduo faz da realidade a partir de sua experiência pessoal.
A ideia de seres humanos estocando e se alimentando de outros serem humanos é aterrorizante, porém se tornou um ato razoável (e talvez racional por visar a sobrevivência) para um determinado grupo. Contudo, esta escolha se mostrou questionável e condenável para tantos outros, que preferiram continuar acreditando e optando pela solidariedade e manutenção da civilidade conhecida até então.
Numa situação extrema, quem estaria certo?
A Estrada pode nos proporcionar tantas reflexões em tantas instâncias (social, psicológica, espiritual...) que foi inevitável ver cenas de pilhamento humano, desbarate da propriedade privada e etc e não correlacioná-las com as distorções geradas pelo capitalismo e outros sistemas em desequilíbrio.
Mas estas são questões mais pesadas e sérias e não pretendo abordá-las, por isso retomo a ideia da moral pessoal.

O garoto, nascido em meio à tragédia, tem seu caráter forjado através dos ensinamentos do pai de que o mundo é dividido entre homens bons e homens maus, e é estimulado a manter a "chama da bondade" acesa.
O ambiente de amor, cuidados e sacrifícios por parte desse pai, formam no pequeno sua própria moral, que não usa a miséria como desculpa para não nutrir pelo próximo sentimentos de compaixão e doação. Mesmo diante do "apagar da chama" de seu pai, rejeita a lógica do indiviadualismo e selvageria em nome da sobrevivência.
Em nossa reunião, discutimos se era possível que alguém que não conheceu a ordem pudesse expressar sentimentos puros e nobres como os que o garoto tinha... talvez esta seja uma reflexão, como citei, de instância espiritual.
Creio que cada um escolhe a estrada que quer seguir!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O que você faria?

Foto: Manuela Lins
Eu me perguntei diversas vezes durante o filme. "O que eu faria?" A dúvida de desistir ou não foi a que me deixou mais abalada. Consigo me colocar no lugar daquela mãe que escolhe não continuar tendo uma sub vida e diz que se dependesse dela levaria o filho também. Não, não sei se eu conseguiria desistir sem saber que não fiz o máximo. Eu acredito que iria sim até o extremo, como fez o pai.

Certo, não me mataria. Mas, e agora? O que faria? Criaria uma ilusão para meu filho, para que ele não percebesse (ou pelo menos amenizasse) o que havia sobrado do mundo? Ou seria dura e realista, como foi o pai do menino? Não sei. Lembro-me do filme "A vida é bela" onde também há uma criança vivendo em uma situação extrema, esta vive na ilusão. Não sei se teria força e imaginação o suficiente para entreter meu filho em meio a tanta fome e destruição.

Porém, para mim o mais importante de tudo isso é que o diretor conseguiu me deixar num beco sem saída! Não consegui julgar nenhum ato do pai, todos são compreensíveis, mesmo existindo outra possibilidade, fiquei de mão atadas, sem conseguir dizer o certo ou errado.

Depois de tudo, isso fica martelando em minha cabeça: há várias possibilidades. Sempre há, e várias podem dar certo.
Aprendi a ser mais compreensiva.

Viver ou Sobreviver?

Imagem: Divulgação
Em 'A estrada' somos inseridos em um mundo pós-apocalíptico, devastado, cheio de desgraça e vazio de humanidade. E nesse cenário cinza, frio e cruel passamos a acompanhar a jornada de um pai e o seu filho lutando pela sobrevivência, que não é apenas uma questão de encontrar comida e algo para se aquecer. Na viagem em direção ao sul, eles enfrentam os perigos de um tempo onde 'homens maus' são capazes de estocar seres humanos para comê-los mais tarde.

O filme retrata o que homens 'bons' são capazes de fazer quando estão no limite. No limite do sofrimento, do medo, da fome, da luta... E que mesmo em momentos extremos há a opção de deixar ou não o 'fogo' apagar.

É de se ficar pensando como reagiríamos em situações tão adversas como as encontradas no filme. Eu não sei. Não sei se conseguiria viver como selvagens, atirando antes e perguntando depois, fugindo, me escondendo... Mas e isso é vida? Não encontro sentido e acredito que faria parte dos que não se contentariam em 'apenas' sobreviver.

Contudo, não sei se meu pensamento seria diferente se eu tivesse um filho, talvez minha perspectiva mudasse e minha 'vida' voltasse a ter um sentido. De qualquer forma, ainda precisaria de muita fé para sobreviver em tempos sem esperança alguma.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

(V)idas

Esse filme permitiu-me fazer uma comparação com o drama, de Fernando Meirelles, Ensaio sobre a cegueira. Ambos são baseados em obras homônimas. A estrada baseada no romance de McCarthy e o Ensaio, na obra de Saramago.

Assim como no Ensaio, o longa A estrada não têm intenção de nos fazer refletir sobre causas nem sobre como remediar o que está posto. Tratam, prioritariamente, de uma questão: como o ser humano (re)age após uma catástrofe? No Ensaio sobre a cegueira, vi como personagem principal a epidemia, no filme A estrada vi, a catástrofe.

Não tenho intenção fazer crítica de cinema. A comparação serviu para situar-me acerca da abordagem do filme. Apesar das histórias serem diferentes, convergem em um ponto: o instinto de sobrevivência.

Durante os 112 min, do drama de Hillcoat, encontrei diversas respostas para questões como: “o quê/quem nos mantêm vivos?”; “o que nos faz querer seguir em frente, mesmo sem saber ao certo onde iremos chegar ou o que iremos encontrar?”; “o que é ser justo?”; “por que/quem insistimos em sobreviver?”; “o que é ser bom ou ruim?”. Se em condições ‘normais’ nos embriagamos na relatividade dada a essas questões, em condições adversas, ou por que não dizer, sem condições, nossas certezas dissolvem-se na poeira espacial.

O filme reforçou minha convicção da potencialidade que temos para sermos o que quisermos ou o que necessitemos ser. Não há bons ou ruins, o que existe são seres que lidam de diferentes maneiras nas situações. Nem a pureza contida no garoto, tirou de mim essa ideia. Para mim, sua inexperiência o salvou de sua própria “maldade.”

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

CLICHÊS: VIVEMOS SEM ELES?

Clichê é aquele chavão, lugar-comum, aquilo que, de tão repetido, perde o sentido de ser dito, perde o vigor semântico e até emocional mesmo. Ou seja, não faz mais nem cosquinha. Podemos viver sem clichês? Diria que podemos. Mas, não conceberíamos o cotidiano sem a existência deles. Clichês nos cansam os ouvidos, mas também podem incomodar. E o filme "A Estrada" esfregou na minha cara vários clichês.

Fiquei tonta de raciocinar, de entender os meandros do filme, o roteiro, a fotografia, o sentido que o diretor quis dar em determinadas cenas... Tudo muito válido e ainda bem que existem essas questões. Mas, ironicamente, quando procurei um fio de pensamento para escrever esse comentário, adivinhem? Deparei-me com eles! Os clichês! Eles estão presentes o tempo todo no filme e pelo menos eu não me dei conta em um primeiro momento. Fui apanhada por clichês! Separei alguns deles para discutirmos

O HOMEM É PRODUTO DO MEIO - O filme aborda muito bem essa questão (tão bem que nem notei esse "clichezão" logo de cara"). O mundo pós-fim-do-mundo transformou aquele homem. Aquele pai que engoliu o desespero e o amor pelo próximo em prol de proporcionar dias melhores para o filho. Nem que sejam dias menos infelizes. Sem água, comida, amor, o pai vive e é ativo de uma realidade dura, na qual canibalismo e morte em vida parecem ventos que passam o tempo todo por eles, os envolvem, os beijam e dali não saem. Ali ficam. A brutalidade da vida embruteceu o homem. Embora não tenha conseguido o mesmo com a criança. Truque do diretor para amenizar o clima e adequar a película às convenções hollywoodianas? Mensagem subliminar de que as crianças são sempre boas? Isso já dá outra discussão!

O MUNDO ENSINA A VIVER - Em uma mesa de bar ouvindo algum ser humano dizendo isso pediria a conta. Mas, com o filme, entrei em contato com esse pensamento tantas vezes, tantas vezes essa ideia me consumiu que eu nem me apercebi dela em um primeiro momento. E ainda gostei! Ainda me peguei filosofando como nós aprendemos com o mundo, como nós somos ensinados com as dificuldades do mundo. Aquele homem reaprendeu a viver, ou seja, a sobreviver com o mundo que estava à frente dele e que, ao mesmo tempo, o consumia, fazia evairem-se as últimas pistas de que ali naquele cenário vivem seres humanos. O mundo os ensinou uma outra forma de vida, a morte em vida. E a morte em vida é um clichê! Mas o que fazer sem ela? Clichês desse tipo definem sentimentos e sofrimentos. Precisamos de definições em muitos momentos de nossas vidas. Respostas que não solucionem os problemas, mas que pelo menos os respondam.

NÓS NOS CONHECEMOS? - Atire a última pedra quem nunca pensou isso, mas não teve coragem de falar temendo ser considerado um piegas? Realmente, não nos conhecemos. Aquele homem lutando para continuar vivo numa sobrevida se conhecia? Saberia se seria capaz de fazer tudo o que ele fez se só tivesse tido contato com mundos cor-de-rosa? Naquele universo cinza, sem vida e cheirando à morte e desespero ele foi colocado face a face com uma parte dele que talvez nem soubesse que poderia existir. Perdeu a humanidade ou protegeu o pouco que lhe restava de humano em razão do filho? E nós? Nos conhecemos? Sabemos do que somos capazes numa situação-limite? Eu sei que é clichê, por isso nem me atrevo a perguntar isso em outro fórum que não seja esse! (rs.) A licença literária nos permite divagar por terrenos proibidos por nossas convenções sociais.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

CINZA A COR DO AMOR?

A Estrada

Cinza: primeira palavra que vem a cabeça ao lembrar o filme. O bom desse grupo é esse cuidado que acabamos tendo que ter ao fazer as leituras ou, nesse caso, assistir aos filmes. A fotografia foi algo que me faz tirar o chapéu. As paisagens me foram muito marcantes. Cenários cinza com paisagens sem vida (mundo sem animais, vegetação próxima à extinção) muito realistas com cidades em ruínas e veículos abandonados.

Após um evento cataclísmico (não explicadas as causas), pai e filho sobrevivem (tendo o filho nascido após o evento já ter ocorrido e assim não tendo conhecido o mundo como era antes) e seguem rumo ao litoral em busca de mais calor (o mundo se tornou muito fio após a catástrofe ecológica). Durante o percurso, a dupla vai encarar todos os desafios existentes daquela realidade: frio, ausência de comida e o maior deles: a fuga do canibalismo, um mal decorrente daquela realidade de extinção dos recursos naturais (animais e vegetais).

O filme faz refletir, inevitavelmente. Primeiro, pra quê continuar existindo nessa (sem?) perspectiva? Qual o objetivo de seguir adiante?

Na tragetória do filme, os encontros me chamaram a atenção: com os canibais, o velho e o ladrão. Canibalismo trazendo o retrato do limite humano de sociabilidade. Humanos comendo humanos, matando humanos, armazenando humanos como comida...

No encontro com o velho, a reflexão sobre a importância dada aos idosos (isso vale pra nossa realidade), naquele cenário de avaliação cotidiana, dos desafios pra sobreviver, me chama a atenção a perspectiva do olhar do menino, que desprovido da racionalidade adulta da programação de provimento, se desnuda de qualquer avaliação futura (poderia-se dizer imaturidade e falta de visão) e traz a tona (pra mim foi essa a intenção do autor) a reflexão sobre as possibilidade de os valores e a importância do ser humano, serem levados em consideração, naquele mundo.

Essa perspectiva se repete na cena do ladrão. O pai, já no seu limite, preocupado com o estado de saúde agravado, com a possibilidade de deixar o filho sozinho no mundo, se vendo com todo seu provimento roubado, ao reaver seus pertences, amedrontado e revoltado, não tem condições de perdoar o ladrão deixando-o sem nada (nu mesmo). O menino mais uma vez interfere e dá a oportunidade ao pai de experimentar uma visão singular, que aparentemente era única daquelas paisagens.

Era como se o autor pretendesse provocar realmente essa reflexão: não tendo o menino conhecido nosso mundo (como ele é agora), mas nascido e criado naquela realidade hostil, apesar de com o amor paterno, teria ele condições de ser um menino tão ingênuo e bom? Eu não consigo acreditar que sim. Experimentando tanta fome, medo, frio e dificuldades de toda ordem (como o medo dos canibais – homens maus), não consigo acreditar que aquele estereótipo de menino fosse possível. O personagem do menino foi assim, pra mim, um mimo, um afago, um suspiro aliviante nesse filme tenso, pretensioso, instigante e bem feito.
De fato, filme bom, apesar de tudo traz no fundo, reflexão sobre amor, cuidado, perseverança e fé. Mas acabei de assisti-lo pesada, reflexiva, acinzentada. Fiquei triste com o fim, pra mim foi mal feito. Poderia ser melhor.
P.S.: Não consegui descobrir o motivo da falta do dedo polegar de alguns personagens.