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domingo, 30 de junho de 2013

Vidas que não são

Vida:
  1. Duração das coisas.
  2. Existência. 
  3. União da alma com o corpo. 
  4. Espaço de tempo compreendido entre o nascimento e a morte do ser humano.
  5. Maneira de viver no tocante à fortuna ou desgraça de uma pessoa ou às comodidades ou incomodidades com que vive
  6. Alimentação, subsistência, sustento, passadio. 
  7. Condições para viver e durar; vitalidade. 
  8. Princípio de existência de força; condições de bem-estar, vigor, energia, progresso. 
  9. Expressão viva e animada, animação, entusiasmo. 
  10. Causa, origem. 
  11. Sustentáculo, apoio principal, fundamento, essência


Ainda há tantas perspectivas pra definições... E são tantos os adjetivos pra casar. Graciliano focou nas secas.

Livro impactante! Ao meu agrado, como são todas as boas histórias que não se esquecem de fazer boas leituras sociais.

No caso de Vidas Secas a leitura é crítica. Criticamente comovedora, instigante como toda trama. Faz o coração bater em compasso oprimido. E o coração apertou tanto que houve capítulos que não reuni condições de vivenciar, como o da morte de Baleia.

Como nordestina conhecedora da realidade da seca através das minhas histórias familiares agrestinas - tanto as contadas como as presenciadas-, ler Graciliano foi perceber o quanto as telas desenhadas nas suas linhas eram vivas, apesar de secas. Como era condizente, pertinente e real aquilo tudo.Como eram os personagens fortes, apesar de fracos. 

As vivências são distantes da realidade metropolitana dos muitos leitores que já degustaram o cheiro de poeira seca do sertão desenhado por Graciliano, mas duvido muito que alguém que chegue a última página possa dizer que o coração não descompassou.

Sinhá Vitória, Fabiano, Baleia, os meninos, o céu, a poeira, a fome, o medo, a ignorância, a opressão, a cidadania inexistente, o sertão sem lei, o trabalho duro, a vida que é mera existência.

Um privilégio a oportunidade dessa leitura.


sábado, 25 de maio de 2013

Deus, o homem, a religião, o amor


Uma leitura inevitavelmente provocativa . Tratar do tema religião sempre me parece uma ousadia, de forma que passo a admirar previamente o autor, independentemente do conteúdo de suas linhas.

No princípio da leitura, não nego certa  má-vontade, quando da passagem do autor pela avaliação da influência de Marx e das ideias materialistas sobre a humanidade. Me pareceu que o autor tentava simplificar e minimizar a importância  das ideias marxistas sobre a humanidade. Mas superei esse desconforto inicial e segui adiante na leitura, pra conseguir ao final avaliar como muito positiva a ousadia do autor.

O passeio histórico que faz, ajuda o leitor a se situar e seguir junto a construção histórica do sentido de muita coisa da perspectiva da questão da religiosidade e das construções das próprias religiões e seu sentido na vida do homem.

A instigante provocação que faz sobre a construção histórica da humanidade e o caminho que a religião percorreu, tendo Deus se humanizado na vida do homem e o homem se divinizado com as mudanças de paradigmas e novos papéis sociais assumidos, foi um arrebatamento ousado e pragmático, que o autor constrói com certo pragmatismo.

Apesar de ser uma leitura um tanto quanto densa, pros leitores menos acostumados ás reflexões filosóficas (eu me enquadro nesse grupo), o autor consegue se fazer entender e oferta um produto interessante e provocativa pros que tem interesse sobre o tema.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O Capibaribe de João Cabral: poesia inteligente do poeta engenheiro



Aos 32 anos de idade não posso, nem devo, me dar ao luxo de ficar me envergonhando por minhas verdades. Ler João Cabral de Melo Neto até então era uma aventura da qual eu ainda não tinha decidido participar.

Nos tempos surubinenses de Colégio do Amparo e Marista Pio XII o nível de estímulo para leituras em minha vida, quase se aproximava de zero. Falo tanto de incentivos e referências domésticas, quanto didático-pedagógicos. Lia o que “dava na telha” e nem sempre a telha ofertava algo de útil.

Tive sorte de ao menos gostar de ler. Claro que o lamento é pelo tempo que perdi com algumas pérolas reprováveis, entretanto, foram essas mesmas leituras que também ajudaram a me construir enquanto ser humano, que me ajudaram a ser quem sou, afinal como diria Ana Carolina “... nem o erro é desperdício, tudo cresce...”

A leitura de O Rio foi um “auto-presente”. Me favoreceu muito a temática do Capibaribe que hoje muito me tem chamado a atenção pela pauta estadual de navegabilidade do mesmo. Eduardo Campos bancando um estudo necessário de implementar rotas alternativas pro transporte público, tem cometido o pecado de fazê-lo de maneira amadora e irresponsável. Em suma, vão dragar o Capibaribe em profundidade suficiente que irá superficializar os grandes depósitos de metal pesado que dormem a longos anos em camadas profundas, provenientes da tamanha poluição acumulada ao longo dos anos.

Então ao saber desse lançamento não tive como não querer muito unir o útil ao agradável: ler pela primeira vez João Cabral de Melo Neto e ter a oportunidade de saber de suas perspectivas sobre o Capibaribe.

Dito isto só me restam agora os elogios. Livro lindo! Poesia peculiar, que emociona com a beleza com a qual ele trabalha as palavras, ilustrando-as, dando contornos e perspectivas bem próprios. Provoca o leitor, a sabedoria do homem, cidadão e poeta que, em profundidade, aborda perspectivas diversas sobre um mesmo tema, sem se tornar cansativo ou repetitivo.

Impossível não registrar com ênfase a emoção de reler (dessa vez por inteiro) Morte e Vida Severina. Muito bom descobrir (mesmo que tardiamente) um autor recifense de tão alto gabarito e maestria. E satisfeita por perceber e reconhecer que a temática da importância do Capibaribe pro nosso estado, apesar de pouco pautada pelos artistas, intelectuais e políticos da atualidade foi profundamente avaliada por um grande homem das letras pernambucanas.

O Rio foi mais que um achado meio que ao acaso, foi uma leitura prazerosa, uma descoberta, uma oportunidade bem feliz de conhecer e compartilhar um pouco da sábia e perspicaz poesia de João Cabral de Melo Neto. Gosto de quero mais!

quarta-feira, 13 de março de 2013

O amor de Georges por Anne


Voltar ao CCL com “Amor” foi muito bom!

Pra iniciar, na parte pragmática da montagem do texto, como subsídio, decidi auto provocar-me buscando o significado teórico da palavra amor. Donde da busca após alguns risos (da definição: tendência ou instinto que aproxima os animais para a reprodução) e algumas irritações (da definição: grande afeição de uma a outra pessoa de sexo contrário) acabo me decidindo por levar em conta o que considera o Aurélio Buarque de Holanda Ferreira:

“ 1. Sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem. 2. Sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro, ou a uma coisa. 3. Inclinação ditada por laços de família. 4. Inclinação sexual forte por outra pessoa. 5. Afeição, amizade, simpatia. 6. O objeto do amor.”

Agora nas caixinhas de som, Mick Hucknall colabora na transpiração com “You Make Me Feel Brand New” e volto ao filme com o desejo de passar bem longe de qualquer tendência julgadora. 

Penso que Michael Haneke seja um homem bem pragmático. Parecendo não precisar/desejar provocar emoções nos expectadores, abriu mão de recursos como trilha sonora ou enfoque em cenas potencialmente comovedoras, pra retratar objetivamente o drama do casal.

Uma das melhores sacadas do filme, pra mim, foi fazer a inversão mais provável de condição de cuidador, que na regra competiria à mulher, para o Georges, que assumiu o papel de amoroso parceiro, amigo, enfermeiro e companheiro. Outra coisa que ressalto como fundamental é o papel de utilidade pública mesmo. Muito peculiar o trato do diretor com as minúcias sintomatológicas do AVC, as repercussões, os detalhes das limitações cotidianas com o avançar e ampliação do quadro clínico.

Como profissional de saúde, não consigo deixar de lado o olhar sobre os inúmeros desafios e dilemas da arte de cuidar. E ainda instigada pelas inúmeras definições da palavra amor, me permito concluir que sim, Georges amou Anne até o fim, foi ao seu limite físico, emocional e psicológico, vindo a decisão final, ao meu ver, como um aceno de entendimento ao que já solicitava sua companheira.

Tratar eticamente do desenlace final do filme, incluiria contaminações quase que inevitáveis, de cunho e percepções de fé, além de correr o risco de me colocar na condição, que não me compete, de julgadora. Então fecho por aqui. Amor, inevitavelmente um filme que tocou muito, pelas interpretações, em especial de Emmanuelle Riva, com aplausos concomitantes pra maquiagem convincente, pro desinteresse do autor de se utilizar de tantos recursos possíveis pra provocar emoções, que brotaram inevitavelmente quando ele conseguiu talvez o que mais quisesse: fazer a troca. Provocar profundamente o expectador para entrar nos personagens, sentir suas emoções e fraquezas, participar dos seus dilemas, das suas dores e das suas decisões.



terça-feira, 24 de julho de 2012

Riquesa e pobresa: faces de um mesmo enredo latino


Exploração insessante da cana de açúcar, do ouro, da prata e de outros metais preciosos; extermínio de civilizações indígenas; tráfico e escravidão genocida de africanos: receita fácil para a impulsão decisiva do desenvolvimento da Holanda, França, Inglaterra e Estados Unidos.

O Brasil e a América Latina teriam "tido o azar" de serem ricos por natureza. A teórica "falta de sorte" do solo norte-americano, se converteu em aliado que permitiu que seus colonos, diante da improdutividade das terras recém-descobertas, um pouco mais a frente, dessem "carta branca" para que a "pobre terra estadunidense" pudesse tentar avançar a construção de sua nação através da industrialização.

O mesmo destino não teriam as terras latinas, que ricas em metais e com solo fértil só precisariam de mão de obra barata para ser explorada até o último ceitil. Desde a prata de Potosi até o ouro de Minas Gerais, as terras latina americanas financiaram o crescimento de diversos países europeus, em especial Holanda, França e Inglaterra.

Espanha e Portugal, teriam sido meras pontes do desenvolvimento dessas nações. Exlorando as terras recém-descobertas, para quase apenas, pagarem dívidas com tais países. Não chegando nunca a usufruir de fato, do produto do estrago/expoliação histórica que causaram aos países nascituros americanos.

Somente com ele, Galeano, visualizo essa possibilidade ousada de escrita. Trazer a história pro papel, de maneira leve e com sua linguagem característica. Com a propriedade e a ousadia de quem é um profundo conhecedor das mazelas da zona latina do novo continente.

Galeano além de um incansável estudioso, é um profundo apaixonado pela sua terra e um entuasta da idéia da Grande Pátria Latino Americana. Trás com entusiasmo histórias dos grandes nomes que sonharam na libertação real do nosso continente, dos grandes nomes Tupac Amaru, Juan Velasco Alvarado, José Morelos, José Artigas, Augusto Cesar Sandino, Emiliano Zapata, Simon Bolivar entre outros. Faz avaliação de conjuntura e arrisca prognósticos ousados pro futuro.

Apesar de muitas informações de As veias abertas da América Latina, já estarem superadas, o livro é rico demais. Um puxão de orelhas, um pisca alerta pra reflexão acerca da realidade. Um convite à saída do marasmo aceitacional no qual aparentemente estamos mergulhados.

Discutir a realidade atual, olhando pro umbigo e meramente pra conjuntura atual, é cair no perigoso caminho do convencimento fácil que o discurso liberal trás pra quem quiser caminho fácil.

Galeano propõe avaliar o verdadeiro "buraco" dos fatos, donde tudo nasceu. Propõe que diante do que temos vivenciado, como produto do atual sistema de produção e de relações sociais e internacionais, que consigamos, ainda em tempo, ter clareza de que nós vivenciamos em nosso dia a dia, apenas um mero desdobramento da expoliação sofrida no passado enquanto nação. Expoliação essa que serve hoje para que sociedades ricas possam usufruir através do "estado de bem estar social".

Galeano acredita na construção da Grande Pátria e na verdadeira libertação da América Latina.

As veias abertas da América Latina é um livro pra ser lido e pensado por todos os povos latino-americanos.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Filosofia e arte numa narrativa profunda

A wikipédia diz que Robert Maynard Pirsig é um escritor e filósofo e que foi uma criança super dotada, com QI de 170 aos 9 anos.

Eu depois de ler "Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas" realmente não duvido. Um livro realmente muito bom, que trata de questões sobre a forma como vivemos, sobre como conseguir equilíbrio na dinâmica complexa de nossa existência no mundo atual. O livro tem o detalhe da ousadia do autor, que me lembrando "O mundo de Sofia", fez um livro de filosofia utilizando-se da técnica da narrativa, muitíssimo bem construída e amarradinha.
A história trata da narrativa de Robert, que de férias com seu filho Chris, parte em uma viagem de motocicleta na companhia dos amigos Sylvia e Jonh. Na viagem, nós, os leitores, seguimos na garupa dos pensamentos do narrador pelas estradas, passeando por temáticas do cotidiano, arte, humanismo, religião, filosofia, educação, manutenção de motocicletas bailando sutilmente ainda com as idéias filosóficas de Kant, Hegel e Poincaré, entre outros.
Em uma confortável posição, nós os leitores passeamos com Robert pela sua mente, enquanto ele refaz a trajetória de sua vida e de seu relacionamento com a figura de Fedro. Na verdade acho mais adequado tratar de "a personalidade Fedro". O autor nas suas divagações organizadas a partir do que ele chama chautauquas (séries de palestras que visavam edificar, divertir, aprimorar o raciocínio e fornecer cultura e informação ao espectador”) pauta e organiza o desenrolar do livro, que tem um final que me fez arrepiar.
Me lembrando de uma certa amiga (ex, futura, atual membro do Café com leitura) e ainda bem impactada pela leitura de Zen, já com vontade de ler agora “Lila – uma Investigação Sobre a Moral”.


(Desculpem pelo excesso, mas foi meio irresistível não postar essas fotos. Me senti ainda mais dentro do livro...)

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Quando não consigo ser contaminada


Uma expressão que me vem a mente como representativa do meu entusiasmo com a leitura de algo é a palavra "contaminação". Antes de iniciar a leitura do livro, confesso, estive bem motivada pro início das leituras. O nome de Marcelo Rubens Paiva já era conhecido. E o título, concordando com o texto anterior era, de fato, bem atraente, contudo a leitura de "A segunda vez que te conheci", se mostrou bastante maçante.

A cada passagem de página, a cada chegada a um novo capítulo ressurgia em mim uma nova esperança de que as coisas avançassem rumo a minha expectativa. Fato que, chegado à última página, não conteceu.

A impressão que me deu foi a de falta de um mínimo de humildade do autor. A história flui, mas a impressão é a de que o autor tem uma preocupação contínua e maior que a obra. É uma preocupação que subjaz nas entrelinhas.

Tentei ter o cuidado de fazer com que a minha antipatia pelo protagonista, desde o início da leitura, não fosse transferida ao conjunto da obra, mas o fato objetivo, é que isso foi se tornando complicado, à medida que eu avançava na leitura.

Marcelo não deixava de aparecer. Acho que o escritor acaba se denunciando. Na verdade não sei se tem como se desnudar de si completamente, mesmo em obras teoricamente ficcionais.

Em suma, não consegui ser contaminada pelo livro que, a propósito, não indicaria. Mas tô com disposição para ler, mais pra frente, outros títulos do autor. Quem sabe não sai a má impressão.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Um convite à auto-sinceridade


“A proximidade maior da imoralidade que nos é permitida: estarmos executando nossas mais profundas ordens.”
A princípio, uma leitura atípica, complexa, densa, que em sua natural condução nos leva ao nosso encontro. Inquietante a cada página.
Repudiar com veemência todo tipo de ação ou comportamento limitante que vá de encontro com a nossa verdade maior, com o nosso EU verdadeiro, nossa essência. É assim que Bonder vai caminhando na construção do significado de imoralidade e de alma.
Alma no sentido de “... nada mais do que o componente consciente da necessidade de evolução, a parcela de nós capaz de romper com os padrões e com a moral”. Para Bonder é a alma a nossa essência, o que somos verdadeiramente e seria ela a quem deveríamos atender em sua completude. Porque é ela quem nos leva pra adiante, quem quer nos levar ao nosso melhor, à verdade. É ela quem nos leva mais próximos de sermos mais felizes. E imoral seria tudo que externo à nossa alma, logo também à nossa essência, nos distancia da nossa felicidade, da nossa verdade.
Bonder incansavelmente destrincha sua admiração pela transgressão. Transgressão em seu melhor sentido, o de se aproximar e encontrar a si, indo em sentido oposto às regras, imposições, normas e a tudo mais que nos tenha sido posto dogmaticamente, e que sendo assim, nos limite e aprisione por toda uma vida.
Em suma, um convite à espontaneidade.
Tá recomendado!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Longe de lá

Na Argélia o protagonista Mersault recebe um telegrama, com o comunicando do falecimento de sua mãe, que então morava em um asilo. Ele comparece ao funeral, entretanto sem expressar nenhuma emoção digna de nota, não chega a se comover pelo falecimento de sua genitora.

Na seqüência do romance o que se passa é uma narração de sua vida: sua amizade com um dos seus vizinhos, Raymond Sintès; seu namoro com Marie, uma antiga colega de trabalho; seu cotidiano no trabalho; suas atividades de lazer... sempre com uma aparente marasmática tonalidade deja vu, na narrativa que é feita sempre feita em primeira pessoa.

Um dia, após uma confusão em que seu vizinho Raymond sai ferido, em um uma fração de minuto rapidamente confundido pela luz e calor do sol forte, Meursault se equivoca na leitura de um possível risco que corre, e mata um árabe, que havia ferido o amigo anteriormente.

O restante da trama trata da prisão e julgamento de Meursault, que entre suas peculiares lembranças de sua vida pregressa e sua adaptação à nova realidade na prisão, nos leva a uma viagem acerca de sua aparente apatia perante à vida.

O julgamento é marcado pelo equívoco. O protagonista praticamente não é julgado pelo crime. A tese da acusação é sustentada insistentemente pela ausência de emoção de Mersault quando da morte da mãe. É a defesa de um modo padrão de ações/emoções esperadas. O objeto do julgamento perde o motivo de ser. Mersault é enfim condenado.

Um incômodo paulatinamente me acometeu durante a leitura ao lidar com a indiferença contínua do protagonista. Que aparentemente em nada se afeta diante dos fatos da vida. Em poucas passagens do livro, algo próximo de emoção é posta. No mais a narrativa é fria. O que aquece o leitor (meu caso), exatamente é a inquietação própria da abstinência viciosa de quem em muito ainda está contaminada pela dinâmica hollywoodiana e fica na espera de uma reviravoltas em um romance que já estava posto, de uma emoção que já existia desde sempre.

Era como se para Meursault, se sujeitar a qualquer regra social fosse um sacrifício que não valesse a pena. Era como se o seu viver tivesse um valor diferente. Em alguns momentos era como se ele fosse um estrangeiro, vendo a si próprio, de fora, diante do desenrolar de sua própria vida, longe de lá...

O livro é a mais famosa obra do autor. Instigante... deu vontade de ler os demais!

quarta-feira, 2 de março de 2011

UMA VIAGEM PELA PENA ASSOMBRADA DE VIRGÍNIA WOOLF

Me assustei muito com Uma Casa Assombrada. Me percebendo sentir o temor que a falta de alguma obviedade (mesmo sentimento de quando comecei ler Lígia Fagundes Teles) me traz, segui firme adiante. Era como se cada página fosse uma batalha e ao virá-la eu pensava: meu Deus o que ela (Virgínia) traz pela frente?

Consegui ler todos os contos. Ao todo 21. E fiquei muito feliz por ter vencido meus medos de trafegar com aquela mente inquietante pela avenida das suas idéias. E que idéias! Quantas vivências, quanta sensibilidade...

Tem muita peculiaridade na escrita dela. A sua apreensão de mundo me cativou profundamente. Cada detalhe descritivo era levado em consideração com uma admiração muito sincera, a meu ver. Não se trata das descrições cansativas de alguns autores, mas sim de toda uma significação de importância impressa, que havia no simples fato de ela registrar algo ou alguma coisa.

Me perguntei em vários contos se não havia ali, algum grau de contaminação da escrita com a inquietude mental e da labilidade emocional, que é historicamente registrada acerca da personalidade de Virgínia. Acho que a resposta foi sim, há muita contaminação. Há contos que pra mim foram literalmente incompreensíveis. Nesses casos não aconteceu de não ter conseguido ler nas entrelinhas. Pra mim, as linhas e entrelinhas eram indecifráveis.

Gosto quando um autor me desafia assim. A persistência de ter avançado pra mim foi um prêmio. E o melhor é saber que ganhei muito por ter lido contos excelentes como Lappin e Lapinova, O Legado e Unidos e Separados.

“Encarar a vida pela frente... Sempre... Encarar a vida pela frente, e vê-la como ela é... Por fim, entendê-la e amá-la pelo que ela é... E depois deixá-la seguir... Sempre os anos entre nós, sempre os anos... Sempre o amor... Sempre a razão... Sempre o tempo... Sempre... As horas.” Virginia Woolf

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

UM BAILE COM LYGIA: COLORIDOS PRA TODOS OS GOSTOS


Lygia Fagundes Telles: que escritora! Não é a toa que é membro da Academia Paulista de Letras, da Academia Brasileira de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa. Surpreendeu-me de fato.

Antes do Baile Verde é um grande livro. Me vi navegando em mares tortuosos e nunca navegados. Me vi limitada com meus desejos de conclusões, com meu apego à lógica, com minha saudosa intuição buscando o óbvio que não vinha. Enfim, desbravar as barreiras literárias tem sido o melhor desses cafés. E com Lígia, foi uma aventura adentrar nesse universo de dezoito contos com ópticas das mais variadas. Eu perguntava e ela dizia não. Eu mapeava possibilidades e ela embaralhava meu cérebro. Eu quis desistir e ela contava com graciosidade e não fui capaz de parar (ainda bem).

A Chave foi o que mais me fascinou, mas me surpreendi muito também com Venha ver o pôr do sol, Eu era mudo e só e com O menino. Me emocionei com Natal na barca. E gostei muito da retratação da relação de A ceia.

Um belo livro. Sem dúvida uma grande autora.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

DUAS MENINAS E UM AMOR


Karina Dias de fato me prendeu a atenção em uma leitura dinâmica de cerca de sete horas. Uma tarde pós trabalho, uma rede na varanda e um copo com água foram meus companheiros nessa aventura.

De fato a revisão, ou talvez a falta de revisão da editora Malagueta, chegaram a me irritar. Os erros de ortografia e de gramática chegaram a me tirar do sério. Não gosto de trabalhos mal feitos nesse sentido. Até porque, ao comprarmos um livros pagamos por um serviço (criatividade e transpiração do(a) autor(a), qualidade do papel, do designe, a revisão e por aí vai) e nesse caso faltou o trabalho do revisor.

Voltando ao trabalho de Karina Dias, reitero que o título me cativou durante as cerca de sete horas de leitura. Ela vai narrando e você vai viajando na trama, querendo devorar cada página pra saber da seguinte.

O formato de capítulos alternados de escritas com perspectivas de ambas protagonistas é uma pimentinha que ajuda a leitura a não ficar enfadonha.

Na verdade houve alguns momentos em que a leitura ficava um pouco monótona, com diálogos que aparentemente, se subtraídos não deixariam a trama com menor sabor.

Senti falta, obviamente, daquela perspectiva filosófica de alguns títulos, onde adentrando no espaço interior dos protagonistas, os autores filosofam e apimentam a leitura com perspectivas de mundo diferenciadas e mais ou menos profundas. Karina de certa forma não adentra nessa perspectiva (talvez intencionalmente) se limitando ao óbvio, ao mais superficial.

Eu particularmente fiquei atraída pela temática. Um romance de temática homossexual, que até pouco tempo eu pouco conhecia. Pra mim ainda é uma nova realidade na qual eu estou tateando.

Duas meninas. Duas realidades substancialmente díspares. Da monotonia de uma rotina ao perigo de uma vida de prostituta de infância traumática.

Achei fantástica a persistência de Duda. Acho que por contrastar e muito com a minha realidade de pouca disposição pra grandes desafios. Enfim, é uma história de amor. Gostei da abordagem social da realidade da família de Duda, da naturalidade com a qual a condição de homossexual dela, é aceita no seio familiar pelos irmãos, cunhada e especialmente pela mãe.

Espero que seja uma tendência essa temática se expandir na literatura, no entendimento de que nossa sociedade deve avançar rumo ao fim do preconceito e ao respeito ao amor em todas as suas formas.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

GRANDE FAMÍLIA: COM AMOR TODA ELA PODE SER UMA

Duas mulheres, dois filhos, uma família normal. Trabalho, escola, jantares familiares, crises de adolescentes, amizades adolescentes...

Gostei muito do tom de normalidade dado ao filme pela diretora Lisa Cholodenko. Chega desses clichês e da importância das crises de casamentos gays, muitas vezes evidenciadas nos filmes da temática, dando grifo ao preconceito, às dificuldades, etc e deixando de lado a potencial normalidade que pode ser vivenciada na criação amorosa e estruturada de um filho por parceiros (as) do mesmo sexo.

O filme pra mim trouxe muitas questões, que ao meu ver acabaram não podendo ser aprofundadas diante de tantas questões que tratou: casamento gay, inseminação, criação de filhos, direito dos filhos de conhecerem os doadores... enfim... pra mim, qualquer um desses aspectos já daria pano pra manga pra fazer de cada um deles, um filme.

Mas Lisa foi ousada e dirigiu tudo direitinho. Fica apenas um gostinho de quero mais em relação a alguns aspectos.

A polêmica maior pra mim foi a da traição mesmo. Porque a parte emocionante foi quando a traição se configura, como o retrato da família fica nítido, como há sofrimento, como os filhos tomam partido, como tenta-se preservar o núcleo familiar. Tudo que estava sendo enfocado, perde a importância e a preservação do amor, da família, a ênfase na união dos quatro se torna a prioridade.

Muito gostoso de ver. Vale a pena refletir.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

BRASILEIROS: FILHOS INGRATOS DE UMA "MÃE PRETA"?

Imagem: Google
Franck Pierre foi implacável, pragmático e muito feliz ao filosofar de maneira coerente e serena sobre o tema. Sem pestanejar, ao final do texto, eu tinha chegado a uma conclusão sólida e facilmente perceptível aos meus olhos: no Brasil não se dá importância ao continente africano e as suas populações no que tange o processo histórico de formação da sociedade brasileira.
Na escola aprendemos todos nós, além de que a minhoca é hermafrodita e sobre a tênia solitária, que o Brasil tem uma pátria mãe. E essa é Portugal.
Mas franck Pierre foi longe e conseguiu discutir as implicações, do ponto de vista político, identitário e pedagógico, ligadas à discussão sobre o lugar da África na análise da sociedade brasileira.
Nossa pátria mãe então, apesar da não menos rica cultura e linda língua que nos deixou de herança, temos de relembrar: entrou sem ordem nas terras de cá, vindos das bandas de lá do Atlântico; ignorou os que aqui moravam (tupis guaranis, macro-jês, tapuias, arauaques, caraíbas...), não apenas escravizando, como oprimindo, estuprando, mudando costumes e violentando a cultura e a religião. Mas
Não satisfeitos (nossos pais portugueses) com os “prequiçosos indiozinhos” que não entendendo o porquê do dever de trabalhar para brancos recém-chegados, se negavam ao atendimento das ordens brancas, a alternativa foi trazer os negros africanos para essa etapa da “implantação” da civilização na terra do pau Brasil.
É engraçado, a imagem que vem a cabeça: centenas de navios, cruzando os mares com homens e mulheres negros. E ponto. Não quero me culpar por essa imagem, mas é com ressentimentos que vejo o quanto minimizei por anos o assunto.
Naqueles navios, como lembrou Franck Pierre, vinham africanos de diferentes camadas sociais, sacerdotes, guerreiros, reis, pastores, que tinham religiões diversas, procediam das mais diferentes regiões e culturas, inclusive muitos pertencentes a grupos rivais.
Todos violentamente retirados de seu mundo, de suas culturas, de seus cantos, de suas pátria, de suas famílias, pra virem pra uma terra distante, carregados como animais, dentro de porões de navios sujos, passando sede, frio e fome. Suscetíveis a doenças de todas as espécies, tentando sobreviver aos meses de viagem pro “novo mundo”.
Meu Deus... essa é a nossa história.
Mas quem são nossos pais? Os que “descobriram” uma terra já descoberta e habitada por milhares de moradores? Que passaram pelo atlântico em busca de riquezas pra pagamento de suas dívidas e enriquecimento de sua nobreza? Os milhares de nativos que já resisdam em terras brasileiras? Ou os donos dos braços que literalmente ergueram a estrutura “civilizatória” dessa terra?
Tirem suas conclusões... eu já tenho as minhas.
Pra mim somos filhos miscigenados de múltiplas raças e culturas. Temos valiosos genes felizes de gente branca européia, de índios nativos da nossa pátria e de nobres negros africanos. Somos gente rica de valores, produto de um cruzamento genético muito feliz que deu origem a esse povo maravilhoso que somos nós, os negros-índios-brancos brasileiros!
Uma lástima é nossa educação. Uma lástima é o valor dado ao nosso minimizado passado negro e índio. Uma lástima é o preconceito que existe dentro de cada um de nós. Uma lástima é o entendimento deturpado e ignorante que aprendemos desde a mais tenra idade.
Hoje o cidadão brasileiro negro, continua segregado (ache ruim, ler isso quem quiser), mas continua. E não sou eu quem digo isso, são os fatos, os números, a realidade!!
Hoje, poucos negros conseguem chegar ao ensino superior. Antes de 2004, quando as cotas foram estabelecidas na Universidade Federal da Bahia, por exemplo, apenas 4% dos alunos do curso de Medicina eram negros, enquanto que, no estado, 70% da população se declarava negra. Era uma exclusão que não se vê igual nem na África do Sul, durante o Apartheid.
Os brasileiros precisam encarar a questão da desigualdade sob o ponto de vista racial. Até 1970, 90% dos negros eram analfabetos, porque, após a abolição da escravidão, o Estado abandonou os negros, ao contrário do que fez com os imigrantes, que foram financiados pelo governo para virem para o Brasil.
Certamente que a real saída é a educação pública de qualidade, com políticas sociais que minimizem as diferenças, mas as políticas temporárias de ações afirmativas como as instituições de cotas raciais, que diminuem a grande distância que ainda existe entre brancos e negros no país, são ao meu ver fundamentais.
O Brasil tem uma dívida histórica com os negros e já passou da hora de o governo federal, encarar isso de frente, enfrentar os preconceitos e as distorções dos discursos e corrigir minimamente esse saldo histórico. Gilberto Freyre disse que ninguém liberta ninguém e ninguém se liberta sozinho. A gente só se liberta pela comunhão. E ele estava certo!
Vou respeitar muito quem falar da constituição, de quem levantar a questão genética de que somos todos negros, etc, etc, etc, mas como o tema foi levantado na mesa, registro meu total apoio a política de cotas raciais. No entendimento de que a dívida histórica de séculos de abandono aos negros,vai demorar muito pra ser paga.
E quanto às distorções... justificar que a política de cotas as alimenta, é justificar que o Bolsa família deve deixar de matar a fome de muita gente miserável, pelo fato de existirem muitos malandros e mal elementos, que sem necessitar, recebem o auxílio. O problema não é do programa, da teoria e sim da prática criminosa de quem deturpa o sistema. Não dá pra ser contra cotas, por esse argumento. As distorções devem ser corrigidas. Sei que tem sangue negro correndo em minhas veias e nas veias de cada brasileiro (e burro é alguém se achar branco em nosso país), mas acho que todo mundo tem elementos mínimos pra entender que se os genes que predominaram na determinação de sua cor, forem os genes que determinarem sua cor negra, as chances de você ter menos chances, são inúmeras. Não adianta negar.
Viva José do Patrocínio, João Alfredo, Zumbi dos Palmares, Princesa Isabel, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, André Rebouças, Luíz Gama, Antonio Bento e todos os outros milhares de abolicionistas anônimos que combateram a seu tempo, com entendimento 'são' e avançado, o direito dos negros serem seres humanos, como sempre foram. Aos grandes homens e mulheres que numa época atrasada e hostil, enfrentaram o sistema, não se acomodaram, não se subjugaram, não foram convencidos pelos discursos hipócritas de uma maioria inescrupulosa que por séculos conseguiu convencer, os míopes que se recusavam a pensar.
Viva os negros de nossa pátria mãe gentil. Que essa pátria também seja mãe gentil de cada cidadão negro do país. Que a eqüidade seja lembrada como uma necessária borracha corretiva. Que no futuro consigamos nos ver como iguais (como todos somos) e que as cotas, estejam apenas nos livros didáticos, lembradas apenas como remédio temporário que ajudou pra que nesse país, os brasileiros conseguissem se ver como iguais e terem as mesmas oportunidades, independente de cor.
BRASILEIROS:FILHOS INGRATOS DE UMA "MÃE PRETA"? Acho que tá na hora mudarmos essa história.

"RACISMO É BURRICE"

Imagem: Google

Salve, meus irmãos africanos e lusitanos, do outro lado do oceano
"O Atlântico é pequeno pra nos separar, porque o sangue é mais forte que a água do mar"
Racismo, preconceito e discriminação em geral;
É uma burrice coletiva sem explicação
Afinal, que justificativa você me dá para um povo que precisa de união
Mas demonstra claramente
Infelizmente
Preconceitos mil
De naturezas diferentes
Mostrando que essa gente
Essa gente do Brasil é muito burra
E não enxerga um palmo à sua frente
Porque se fosse inteligente esse povo já teria agido de forma mais consciente
Eliminando da mente todo o preconceito
E não agindo com a burrice estampada no peito
A "elite" que devia dar um bom exemplo
É a primeira a demonstrar esse tipo de sentimento
Num complexo de superioridade infantil
Ou justificando um sistema de relação servil
E o povão vai como um bundão na onda do racismo e da discriminação
Não tem a união e não vê a solução da questão
Que por incrível que pareça está em nossas mãos
Só precisamos de uma reformulação geral
Uma espécie de lavagem cerebral


Racismo é burrice

Não seja um imbecil
Não seja um ignorante
Não se importe com a origem ou a cor do seu semelhante
O quê que importa se ele é nordestino e você não?
O quê que importa se ele é preto e você é branco
Aliás, branco no Brasil é difícil, porque no Brasil somos todos mestiços
Se você discorda, então olhe para trás
Olhe a nossa história
Os nossos ancestrais

O Brasil colonial não era igual a Portugal
A raiz do meu país era multirracial
Tinha índio, branco, amarelo, preto
Nascemos da mistura, então por que o preconceito?

Barrigas cresceram
O tempo passou
Nasceram os brasileiros, cada um com a sua cor
Uns com a pele clara, outros mais escura
Mas todos viemos da mesma mistura

Então presta atenção nessa sua babaquice
Pois como eu já disse racismo é burrice
Dê a ignorância um ponto final:
Faça uma lavagem cerebral

Racismo é burrice

Negro e nordestino constróem seu chão
Trabalhador da construção civil conhecido como peão
No Brasil, o mesmo negro que constrói o seu apartamento ou o que lava o chão de uma delegacia
É revistado e humilhado por um guarda nojento
Que ainda recebe o salário e o pão de cada dia graças ao negro, ao nordestino e a todos nós
Pagamos homens que pensam que ser humilhado não dói
O preconceito é uma coisa sem sentido
Tire a burrice do peito e me dê ouvidos

Me responda se você discriminaria
O Juiz Lalau ou o PC Farias
Não, você não faria isso não
Você aprendeu que preto é ladrão
Muitos negros roubam, mas muitos são roubados
E cuidado com esse branco aí parado do seu lado
Porque se ele passa fome
Sabe como é:
Ele rouba e mata um homem
Seja você ou seja o Pelé
Você e o Pelé morreriam igual
Então que morra o preconceito e viva a união racial
Quero ver essa música você aprender e fazer
A lavagem cerebral

Racismo é burrice

O racismo é burrice mas o mais burro não é o racista
É o que pensa que o racismo não existe
O pior cego é o que não quer ver
E o racismo está dentro de você

Porque o racista na verdade é um tremendo babaca
Que assimila os preconceitos porque tem cabeça fraca
E desde sempre não pára pra pensar
Nos conceitos que a sociedade insiste em lhe ensinar
E de pai pra filho o racismo passa
Em forma de piadas que teriam bem mais graça
Se não fossem o retrato da nossa ignorância
Transmitindo a discriminação desde a infância
E o que as crianças aprendem brincando
É nada mais nada menos do que a estupidez se propagando

Nenhum tipo de racismo - eu digo nenhum tipo de racismo - se justifica
Ninguém explica
Precisamos da lavagem cerebral pra acabar com esse lixo que é uma herança cultural
Todo mundo que é racista não sabe a razão
Então eu digo meu irmão
Seja do povão ou da "elite"
Não participe
Pois como eu já disse racismo é burrice
Como eu já disse racismo é burrice

Racismo é burrice

E se você é mais um burro, não me leve a mal
É hora de fazer uma lavagem cerebral
Mas isso é compromisso seu
Eu nem vou me meter
Quem vai lavar a sua mente não sou eu
É você.

Racismo É Burrice

Gabriel O Pensador

Composição: Gabriel O Pensador
Fonte: letras.com

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

ADOLESCENTE AMIZADE COLORIDA

Imagem: Google
Livro com sabor de tristeza.
Foi sem dúvida o sentimento predominante na leitura, além de inquietação e indignação.
Não conhecia a autora: Régine Deforges. Um nome pra se guardar e conhecer melhor é claro. Conhecida por sua literatura “erótica”, à primeira impressão pelo menos pra mim não foi de ênfase no erotismo, mas na peculiaridade de uma escrita dinâmica, atraente, pragmática, sem arrodeios, que deixa você extremamente desejosa da próxima linha, da próxima página.
O Diário é de uma menina é roubado. Nele um coração aberto ao silencioso confidente, desenha as cores de uma vivência amorosa de duas adolescentes francesas de uma pequena cidade francesa.
O moralismo é colocado a toda prova naquela cidade, que incrimina uma pós-criança, não pelo seu amor, mas pela exposição das “histórias imundas da cidade”. De fato, sob o álibi repúdio ao “proibido e pecaminoso” amor adolescente, a ira da cidade sobre uma adolescente atraente, provocante, independente e desapegada de amarras sociais, a cidade vocifera, agride, escanteia, tripudia da bela Léone.
O melhor é a descrição da forte personalidade dela. As descrições dos seus momentos de devaneios, de entrega aos prazeres de toda ordem, de sua sensibilidade e entrega ao mundo e à natureza, ao belo, à liberdade.
“A noite no campo exige que o ser humano se integre totalmente à sua movimentação, que é lenta e profunda”
“... em muitas oportunidades, transtornada pelas recordações, tive de interromper o que escrevia para me acariciar”
“Gostaria tanto de poder dizer a minha mãe o quanto estou atemorizada, o quanto preciso dela, que os seus silêncios e os meus me sufocam... sua boa educação impede-a de simplesmente me ouvir discorrer sobre o amor e dizer o que ele significa”
“Somos os mais belos, os mais fortes, os mais generosos, nada resistirá a nós”
“...minhas angústias em relação à morte, meu desejo de Deus, tão constantemente ausente, meu desgosto por não ser amada por meus pais como gostaria e por não amá-los como eu quereria”
“ Não vejo em que nosso amor é mais sujo ou mais nojento que o deles”
“...perfume da água, do carvalho meu amigo, da suavidade do sol sobre minha pele, da água tépida... não, eles são muito fechados em si mesmos para compreender essas coisas banais e simples”
“Ninguém é suficientemente louco ou bastante infeliz para procurar paz de espírito nesta noite chuvosa”
Fragmentos que me fascinaram completamente nessa narrativa atraente e cativante
Pra variar: Vale a pena!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

"O POETA É A PIMENTA DO PLANETA"

Imagem: Google
Pra mim... muito prazeroso (re) ler Bandeira. Velhas recordações do meu tempo de colegial 1
Não sei se se tratava de mera coincidência, ou se era realmente preferência da professora de literatura, mas lembro como ela gostava de analisar os poemas de Manoel Bandeira!
E nesta época de Café com Leitura, tentando também sair da rota do circuito e alternativizar estilos, tentando privilegiar um autor pernambucano... só veio Bandeira na cabeça e quando lembrei da deixa de Adriana, a Calcanhoto... então, não pestanejei: é ele mesmo. E lá foi minha indicação!
Ele fazia versos como quem chorava...
Seu verso era sangue, volúpia ardente, tristeza esparsa, remorso vão, angústia rouca...
Eram versos comovidos...
Ele imaginava que quem os lesse, encontraria nos mesmos uma sombra de beleza...
Era assim que ele falava da própria poesia.
Quanto a mim, ouso falar: A Cinza das horas é um livro gostoso de ler. Poesias ortodoxas, bem trabalhadas metricamente, com variações de construção e sempre com elas: as rimas. Na verdade, não tenho muito contra elas, porque aprecio a ousadia de conseguir dizer o que se dizia, com o capricho das rimas, de maneira metricamente impecáveis.
Bandeira fala da própria escrita, louva Camões, aprecia a natureza (e muito: lua, tardes, horizontes, paisagens...), lembra da infância, da família (mãe, irmã, avô...) fala de amor de paixão, da beleza, de tristeza, de morte, de dor, de alegria...
Senti falta de um olhar mais politizado, mas pra um burguês que era... parece que ele dançava a dança do seu centrismo. É claro que não vou desqualificar a sua poesia por conta disso... é apenas uma constatação. Visto que tenho forte tendência a louvar o que não sei (nem de longe) fazer (tão) bem.
Engraçada uma constatação coletiva: como a leitura do livro é cinza! Vem versos, mudam perspectivas e temas, mas a maioria dos poemas são cinzas. As imagens mentais que vêm, são cinzas... Algum psicólogo pra ajudar? Como é que ele fez isso?
“Tudo que amamos são pedaços vivos do nosso próprio ser”
(A vida assim nos afeiçoa, p.25-26)
1 Ensino médio no meu tempo.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

LIBERDADE É VIVER A VERDADE

Márcia Arán, um nome pra se anotar. A psicóloga e professora é danada. E não é que conseguiu me fazer ficar vidrada no monitor sobre um assunto que não tenho muita propriedade pra falar? Bem... o fato é que a didática da professora é incrível e quem viu o vídeo sabe, ela foi coesa e pragmática. Conseguiu apimentar a teoria, tornando-a digestiva.

Sexualidade contemporânea e novas formas de subjetivação. É esse o tema que a professora se propôs a tratar.

Pra Arán, alguns teóricos elencam alguns efeitos colaterais relacionados à questão da sexualidade como: o apagamento da diferença sexual; a crise do simbólico; e as mudanças da sexualidade como causadores da estruturação da sociedade. No que a professora discorda afirmando que deve-se manter os conceitos de diferenças e pensar os laços sociais entre homossexuais/transexuais/transgêneros, apenas deslocando a noção de diferença da maneira clássica de se pensar o masculino e o feminino.

A proposta de Arán foi tratar de três questões na palestra: 1) Deslocamento do feminino (mudança de lugar da mulher na sociedade); 2) Casamento homossexual; 3) Transgenerismo e transexualidade (construção de si com modificações corporais).

Engraçado é perceber o preconceito tão vivo e real dentro de cada um de nós. E o nome já diz pré-conceito, conceito pré definido, estabelecido. Conceitos elaborados com bases não sólidas, empíricas, concebidas a partir de valores e crenças estritamente pessoais, que embaçam o pensamento lógico e a definição clara e mais próxima do real.

Me chamou a atenção as colocações feitas acerca do casamento homossexual, onde a professora coloca claramente as teorias assustadoras colocadas por alguns teóricos e psicanalistas sobre o assunto, alegando-se que poderia haver, perigo da crise da família; que as referências identitárias masculinas e femininas se apagariam; haveria degeneração da cultura. E a professora desconstrói essas colocações e baseada em pesquisas científicas, afirma que não existe nenhuma diferença na forma como as crianças são criadas, não sendo assim a opção sexual dos pais, importante nesse processo.

Outra questão instigante foi sobre um universo desconhecidíssimo pra mim, sobre os transgêneros, travestis e transexuais. Fui logo ao dicionário e ao Google tentar entender melhor:

• Transexualidade: identidade de gênero diferente do corpo biológico. Desejo de viver e ser aceito como sendo do sexo oposto. Vontade de efetuar a modificação corporal via transição do sexo corporal.
• Transgenerismo: expressão de gênero não corresponde ao papel social e ao gênero do nascimento. Estão em trânsito entre um sexo e outro.
• Travestismo: Ato de travestir-se com roupas do sexo oposto.
- Drag Queen: fantasia-se cômica e exageradamente com o intuito geralmente profissional.
- Transformista: veste roupas usualmente próprias do sexo oposto com intuitos essencialmente artísticos comerciais. Não necessariamente isso interfere na sua orientação sexual.

E sobre o assunto a professora esclareceu, não há existe nenhuma fundamentação psicopatológica pra justificar que a condição ainda esteja incluída no CID 10 como Transtorno de Identidade de gênero, que se refere a incoerência entre sexo e gênero.
A professora então cita Foucoult que diz que o sexo é um sistema de poder e fazer e o gênero é algo que se constrói na tragetória, é o efeito das repetições da criação.

Muito boa pedida, muito bom abrir a mente, muito bom pensar no assunto, descortinar as idéias preconceituosas e consequentemente se alimentar de esclarecimento, de ciência, de verdades que são distantes demais, quando não há a disposição de enxergá-las e tentar se apoderar do saber.

Viva a liberdade de ser!

Viva a diversidade!

Viva o respeito!

Viva o amor!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

EXISTIR: POR QUE HAVEMOS DE SER?

Imagem: Google
Casamento estável (!?), um amante, um marido (que nem sonha), duas filhas, pais divorciados. Amigos poucos. Vida social normal pra uma mulher casada: encontros familiares, amigos da classe social correspondente (burguesia). Na cabeça, mil idéias, mil questionamentos, mil porquês.

Laurence é justa e correta, uma publicitária normal. E Simone de Beauvoir apenas se encarrega de adentrar sua mente e nos conduzir nesse emaranhado mental nas deliciosas 140 páginas de As belas Imagens, ao íntimo dessa mulher.

Laurence é apenas uma grande questionadora. Ela cria, recria, analisa, modifica, reconsidera, elenca, tria, pondera, assusta-se, frustra-se si quando frusta os outros. Da adolescência de menina impecável, perfeita, moça excelente, direita, primorosa, perfeita... Laurence diz adolescência podada, limitada, restrita.

Laurence questiona sua vida, sua felicidade, enxerga a alegria, questiona a felicidade, tenta justificar a solidão, tenta entender as trivialidades do olhar/perspectiva da mãe sobre a vida e a profundidade da solidão do pai, em todas as nuances dos seus mistérios (com seu pai, nem as banalidades são banais, por causa daquela luz de cumplicidade nos olhos dele).

Laurence tenta ser uma boa mãe, espelhando-se inclusive nos equívocos cometidos com a própria em infância.

Laurence repensa o “caso extraconjugal” e não o casamento.

Laurence repudia a trivialidade.

Percebi um quê de superioridade nesse questionar-se contínuo. Nessa apatia, nessa perspectiva deja vu incondicional diante de muitos fatos (... não se tem razão contra todo mundo...).
"Eu não era uma imagem; mas outra coisa também não: nada"

Fiquei com vontade de Ler mais Beauvoir. De me apoderar mais do saber existencialista.

domingo, 19 de setembro de 2010

AMORES (IN)COMPLETOS

Desafio danado: o que sai de Saint-Exupéry com Cristiana Guerra? Certamente produto prazeroso e difícil de unir, entretanto belo.

Reflexões de amor. Além de traços de vivências de amores não possíveis, trazem também percepções inúmeras de outras ordens.

Cristina Guerra tenta traduzir nas 190 graciosas páginas de “Para Francisco” a realidade prática e emocional de quem perdeu o “par perfeito” nas vésperas do broto do amor se fazer vida. Exupéry se desnuda um pouco e denuncia as similaridades do Príncipe (o pequeno), com o homem (o criador). De Saint-Exupéry, são “roubados” escritos dos segredos do amor vivido em seu último ano de vida através das cartas à jovem casada de 23 anos.

Exupéry escreve a ela (a amada). E Cristina escreve a ele ( o broto do amor).

Se para Exupéry, “contos de fadas são a única verdade da vida”. Guerra reitera em outras palavras, traduzindo com beleza as graciosidades do seu conto com Guilherme: “seu bom dia era sempre um abraço apertado....ele acordava cedo, olhava para o céu e comemorava... nos raros dias em que tinha preguiça de acordar, esperneava na cama feito criança... Com seu pai eu tinha aquela sensação quase de alívio de quando a gente encontra o amor de verdade... Sua presença trazia delicadeza pra vida da gente... Seu pai vivia me dizendo coisas com músicas. Um jeito charmoso de dizer tudo sem se comprometer...”

Sobre o valor d “os sorrisos, as palavras sem importância que são tão importantes” de Exupéry Guerra os vivencia e traduz “com ele eu me sentia segura para ser eu mesma. Eu me sentia à vontade para não saber. Amávamos nossas imperfeições. Ríamos delas. E assim as acolhíamos. Por serem nossas... o nosso sim era a cada dia... no amor fresco e leve... que “é preciso regar todo dia. Cuidar como planta frágil” pois o amor “é feito de faltas e presenças, nenhuma das duas pode faltar... é feito de liberdade. É como ter, todos os dias, muitas outras opções. E, ainda assim, fazer a mesma livre escolha... descobrir no olhar do outro que você que você foi escolhido de novo... O amor é feito de falta, mas não sobrevive sem a presença. O amor é feito de hoje... O amor interrompido no seu auge permanece bonito para sempre...”

Há desengano em Exupéry na fala do “mergulho num tempo vazio onde não tenho mais motivo pra sonhar” e de Guerra abrindo-se: “Eu temia estar vazia, incapaz de amar você (o filho)... troquei a dor da angústia pelo silêncio da saudade... medo de ver fugirem as palavras que me vinham naquele turbilhão...Queria mesmo era motivo pra não escrever.Para dar conta da morte, a gente arranca uma espécie de esquecimento, não da pessoa, mas da sensação que tinha ao lado da pessoa... “seu coração batendo dentro de mim é que me manteve viva”. A falta dele ocupa um espaço muito grande na minha vida.

E as definições dela, não podem deixar de ser postas:
• Afinidade... é o que deixa a sensação de estar levando a outra pessoa com a gente, aconteça o que acontecer...a capacidade de fazer o outro rir é outra deliciosa afinidade. Rir é o que faz a gente voltar a ser criança... quando uma pessoa tem humor ela sabe rir principalmente de si mesma - até nas situações mais difíceis.
• Surpresa é o que acontece pra nos mostrar que a vida não pode ser controlada.
• Falta é a luz de um flash nos cegando por um tempo.
• Lembrar é sentir de novo.
• Solidão: é quando você descobre que a única pessoa que conhece a sua alma já não está mais aqui.
• Passado é um lugar bonito para visitar de vez em quando. Não para morar.

Não pude deixar de aspear tanto. Não soube como...