Aos 32 anos de idade não posso, nem devo, me dar ao luxo de ficar me
envergonhando por minhas verdades. Ler João Cabral de Melo Neto até então era
uma aventura da qual eu ainda não tinha decidido participar.
Nos tempos surubinenses de Colégio do Amparo e Marista Pio XII o nível de
estímulo para leituras em minha vida, quase se aproximava de zero. Falo tanto
de incentivos e referências domésticas, quanto didático-pedagógicos. Lia o que “dava
na telha” e nem sempre a telha ofertava algo de útil.
Tive sorte de ao menos gostar de ler. Claro que o lamento é
pelo tempo que perdi com algumas pérolas reprováveis, entretanto, foram essas
mesmas leituras que também ajudaram a me construir enquanto ser humano, que me
ajudaram a ser quem sou, afinal como diria Ana Carolina “... nem o erro é
desperdício, tudo cresce...”
A leitura de O Rio foi um “auto-presente”. Me favoreceu
muito a temática do Capibaribe que hoje muito me tem chamado a atenção pela
pauta estadual de navegabilidade do mesmo. Eduardo Campos bancando um estudo
necessário de implementar rotas alternativas pro transporte público, tem cometido o pecado de fazê-lo de maneira amadora e irresponsável. Em suma, vão dragar o
Capibaribe em profundidade suficiente que irá superficializar os grandes depósitos de
metal pesado que dormem a longos anos em camadas profundas, provenientes da
tamanha poluição acumulada ao longo dos anos.
Então ao saber desse lançamento não tive como não querer
muito unir o útil ao agradável: ler pela primeira vez João Cabral de Melo Neto
e ter a oportunidade de saber de suas perspectivas sobre o Capibaribe.
Dito isto só me restam agora os elogios. Livro lindo! Poesia peculiar, que
emociona com a beleza com a qual ele trabalha as palavras, ilustrando-as, dando
contornos e perspectivas bem próprios. Provoca o leitor, a sabedoria do homem,
cidadão e poeta que, em profundidade, aborda perspectivas diversas sobre um mesmo tema,
sem se tornar cansativo ou repetitivo.
Impossível não registrar com ênfase a emoção de reler (dessa
vez por inteiro) Morte e Vida Severina. Muito bom descobrir (mesmo que
tardiamente) um autor recifense de tão alto gabarito e maestria. E satisfeita
por perceber e reconhecer que a temática da importância do Capibaribe pro nosso
estado, apesar de pouco pautada pelos artistas, intelectuais e políticos da
atualidade foi profundamente avaliada por um grande homem das letras
pernambucanas.
O Rio foi mais que um achado meio que ao acaso, foi uma
leitura prazerosa, uma descoberta, uma oportunidade bem feliz de conhecer e
compartilhar um pouco da sábia e perspicaz poesia de João Cabral de Melo Neto.
Gosto de quero mais!

