
Trocas de carta de um jovem aspirante poeta e o grande Rainer Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke.
(Im) Paciência. Em alguns momentos é o que parece ocorrer com Rilke ao dar os retornos ao senhor Kappus, entretanto sempre com lúcida polidez, de dar inveja aos espíritos menos evoluídos como o meu.
Pra quem não conhece a obra de Rilke (como eu), acho que é um bom início começar com essas cartas. Dá pra se instrumentalizar um pouco sobre o “ser humano” Rilke. Em muitas passagens, traduções de pensamentos, maneiras de enxergar o mundo. Muita atenção e cuidado com os conselhos, sempre atenciosos e ricos.
Enfatizo o cuidado do mesmo com as críticas, do que o mesmo era um ferrenho opositor: “não há nada que toque menos uma obra de arte do que palavras de crítica: elas não passam de mal-entendidos mais ou menos afortunados, ajunta na terceira carta: “leia o mínimo possível textos críticos e estéticos – ou são considerações parciais, petrificadas ... ou são hábeis jogos de palavras, nos quais hoje uma visão sai vitoriosa, amanhã predomina a visão contrária”.
Rilke, na tentativa de não criticar, faz uma boa fala já na primeira carta, para que o jovem Kappus procure, antes de tudo, consigo próprio o que procurava saber dele (Rilke): “ Não há meio pior de atrapalhar o desenvolvimento do que olhar para fora e esperar que venha de fora uma resposta para questões que apenas seu sentimento íntimo talvez possa responder, na hora mais tranqüila”. No meu entendimento, a partir da perspectiva dessa resposta, ele segue as demais cartas. Sempre enfatizando e aconselhando o jovem a valorizar tudo como inspiração. A saber ser, ele próprio, seu auto-termômetro. É como se pretendesse capacitá-lo para ser seu próprio crítico.
Ele enfatiza isso de maneira muito feliz na segunda carta, quando dá sua opinião acerca de conselhos: “...no fundo, e justamente quanto aos assuntos mais profundos e mais importantes, estamos indizivelmente sozinhos, de modo que muita coisa precisa acontecer para que um de nós seja capaz de aconselhar ou mesmo ajudar o outro, muitos êxitos são necessários, toda uma constelação de acontecimentos tem de se alinhar para que isso dê certo alguma vez.”
Por fim grifo a preocupação do poeta em tentar acender a percepção de Kappus, acerca da importância na habilidade de saber apreciar, lidar e usufruir da tristeza, da solidão, da paciência e do difícil. Na verdade, são temas muito recorrentes nas cartas (são cinco anos de correspondências – 1903 a 1908).
SOLIDÃO
“... ame a solidão e suporte a dor que ela lhe causa com belos lamentos.” (4ª carta)
“... é necessário apenas o seguinte: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, é preciso conseguir isso. Ser solitário como se era quando criança...” (6ª carta)
“É bom ser solitário, pois a solidão é difícil; o fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la” (7ª carta)
“... é tão importante estar sozinho e atento quando se está triste: ... o instante aparentemente parado... está bem mais próximo da vida do que aquele outro ponto, ruidoso e acidental..” (8ª carta)
PACIÊNCIA
“Alegre-se com seu crescimento, para o qual não pode levar ninguém junto, e seja bondoso com aqueles que ficam para trás, seja seguro e tranqüilo diante deles, sem perturbá-los com suas dúvidas nem assustá-los com uma confiança ou alegria que eles não poderiam compreender” (4ª carta)
DIFÍCIL
“... precisamos nos aferrar ao que é difícil; tudo o que vive se aferra ao difícil” (7ª carta)
“ Sabemos muito pouco, mas que temos de nos aferrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará.” (7ª carta)
“... o amor é difícil. Ter amor, de uma pessoa por outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação” (7ª carta)
TRISTEZA
“...avalie se essas grandes tristezas não atravessaram o seu íntimo, se muita coisa no senhor não se transformou, se algum lugar, algum ponto do seu ser não se modificou enquanto o senhor estava triste.” (8ª carta)
“... quase todas as nossas tristezas são momentos de tensão, que sentimos como uma paralisia porque não ouvimos ecoar a vida dos nossos sentimentos que se tornaram estranhos para nós.” (8ª carta)
Obviamente sem nenhuma pretensão crítica, entretanto não tem como não dizer: vale a pena. Eu recomendo!