segunda-feira, 9 de agosto de 2010

De mãos dadas com a solidão



A ansiedade do jovem Kappus diante de muitas indagações inerentes ao ser humano foi acalentada por Rilke através de poéticas cartas, entre os anos de 1903 e 1908. Embora o intuito de Kappus , a priori, fosse um aconselhamento sobre sua vontade de tornar-se poeta, o jovem foi presenteado com reflexões que, tanto ele quanto nós leitores (bem alheios ao remetente e ao destinatário), podemos levá-las por toda vida.
Rilke tratou com muita lucidez e doçura assuntos polêmicos e intrigantes como morte, solidão e amor. E por tratar-se de assuntos comuns em minhas indagações sobre a vida e o viver, as cartas tocaram-me como se destinadas a mim. Passei a repensar a morte, o amor, a solidão e, principalmente, a repensar o meu papel diante tudo isso.
Não nego que atentei, principalmente, para a solidão, pois experimentar o amor e a morte é inevitável, mas a solidão, há quem passe a vida tentando driblar .
Ora, ora, depois da confissão, não faz sentido a indeterminação do sujeito. Eu passei a vida tentando driblar a solidão. E Rilke me propõe encará-la, pegar em sua mão e senti-la porque através dela, chegarei cada vez mais dentro de mim e descobrirei quem sou.
Instigante a proposta? Ou talvez, enxergar-se e perceber-se seja ‘o lobo mau’ que assusta o solitário? Sigo descobrindo e deixo a sugestão através do poeta:

“Não se deixe enganar em sua solidão só porque há algo no senhor que deseja sair dela. Justamente esse desejo o ajudará, caso o senhor o utilize com calma e ponderação, como um instrumento para estender sua solidão por um território mais vasto.”(p. 64)
[...]
“É tão importante estar sozinho e atento quando se está triste: porque o instante aparentemente parado, sem nenhum acontecimento, no qual o nosso futuro entra em nós, está bem mais próximo da vida do que aquele outro ponto ruidoso e acidental, em que ele acontece como que vindo de fora.”(p.75)



Essa solidão, obviamente, como bem disse minha amiga Manu Lins, não me petrifica diante do outro, não impede a interação, mas sem dúvida, a torna melhor. 

domingo, 8 de agosto de 2010

"Canta que a vida é um dia..."


Ficamos esperando por muito tempo que tudo na nossa vida aconteça. Tem que ser já, tem que ser agora. Esperamos, esperamos, e? Nada! E agora? O que está faltando? Rilke me ensina que o maior responsável por essa espera infinda somos nós. Nós que, por muitas vezes, só sabemos esperar, esperar, esperar... esquecemos de realizar. De olhar para nós mesmos e nos questionar, nos inspirar, nos instigar. Tudo está em nós mesmos. Viver e ser é um ato solitário. A princípio não concordei com essa exaltação à solidão de Rilke, mas a compreendi. É a solidão de sermos nós mesmos, mesmo que com influência do meio, mas sejamos nós. Despidos de qualquer hipocrisia.
Não devemos pensar que por causa da referida solidão devemos estar isolados e alheios ao convívio (como cheguei a pensar no início). Essa solidão é maior do que um simples afastamento de tudo. É o encontro conosco e o amadurecimento diante disso. É quando percebemos que por mais iguais que possamos parecer estamos sozinhos em diversos pensares dessa vida. E isso não exclui o envolvimento afetivo (O que seria de mim?). Até porque o amor chega para nos ajudar a nos encontrar na mistura com o outro.

"O amor constitui uma oportunidade sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo, tornar-se um mundo, tornar-se um mundo para si mesmo por causa de outra pessoa..."

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A inspiração de cada um

Não vou aqui me arvorar numa crítica ao poeta, até porque ele se reviraria na sepultura, tão avesso que é às críticas. Em parte concordo com ele. Criticar o fazer do outro é sempre uma atitude mais confortável do que promover o próprio fazer. O fazer exige inspiração, criação pura, e isso se faz com alma. Alma de poeta. Apenas me aterei a impressões que me ficaram dessa prazerosa leitura.
Primeiro vamos à alma. A alma do poeta. Nos seus conselhos a um jovem Kappus, eis que Rilke meio que ensaia algumas fórmulas para a vida. E não só para a vida de quem quer ser um poeta, mas para a vida de qualquer um que tenha alma e nela reconheça a sua essência. E para começo de conversa, Rilke nos leva a pensar na inspiração. A inspiração que temos dentro de nós.
A inspiração de um poeta não é pautada pelo exterior, coloca Rilke, embora esse exterior lhe seja útil.
E esse pensamento tem até uma concordância com o aspecto fisiológico que a palavra imprime. Uma das entradas no dicionário da palavra "inspiração" remete ao fato de se colocar ar para dentro dos pulmões. Ora, o ar vem do exterior e este não só nos é útil como imprescindível. Isso pode nos levar a associar que a inspiração de um poeta vem de fora. No entanto, concordando com o nobre Rilke, de nada adiantariam caminhões de ar se não tivéssemos a capacidade de processá-los nos nossos pulmões. Ou seja, de que adiantariam todas as impressões do mundo se não tivéssemos a capacidade de processá-las com nossos sentidos mais viscerais? E víscera vem de dentro!
E por falar em interior, Rilke nos convida a voltarmos para dentro de nós. Que não olhemos para fora a esperar que um milagre nos adentre, mas sintamos que em nós integra uma capacidade extraordinária de processar, recriar e rejeitar o que vem de fora. E o que seria do fora se não fosse o dentro, não é mesmo?

Cartas que convidam à leitura das obras


Trocas de carta de um jovem aspirante poeta e o grande Rainer Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke.

(Im) Paciência. Em alguns momentos é o que parece ocorrer com Rilke ao dar os retornos ao senhor Kappus, entretanto sempre com lúcida polidez, de dar inveja aos espíritos menos evoluídos como o meu.

Pra quem não conhece a obra de Rilke (como eu), acho que é um bom início começar com essas cartas. Dá pra se instrumentalizar um pouco sobre o “ser humano” Rilke. Em muitas passagens, traduções de pensamentos, maneiras de enxergar o mundo. Muita atenção e cuidado com os conselhos, sempre atenciosos e ricos.

Enfatizo o cuidado do mesmo com as críticas, do que o mesmo era um ferrenho opositor: “não há nada que toque menos uma obra de arte do que palavras de crítica: elas não passam de mal-entendidos mais ou menos afortunados, ajunta na terceira carta: “leia o mínimo possível textos críticos e estéticos – ou são considerações parciais, petrificadas ... ou são hábeis jogos de palavras, nos quais hoje uma visão sai vitoriosa, amanhã predomina a visão contrária”.

Rilke, na tentativa de não criticar, faz uma boa fala já na primeira carta, para que o jovem Kappus procure, antes de tudo, consigo próprio o que procurava saber dele (Rilke): “ Não há meio pior de atrapalhar o desenvolvimento do que olhar para fora e esperar que venha de fora uma resposta para questões que apenas seu sentimento íntimo talvez possa responder, na hora mais tranqüila”. No meu entendimento, a partir da perspectiva dessa resposta, ele segue as demais cartas. Sempre enfatizando e aconselhando o jovem a valorizar tudo como inspiração. A saber ser, ele próprio, seu auto-termômetro. É como se pretendesse capacitá-lo para ser seu próprio crítico.

Ele enfatiza isso de maneira muito feliz na segunda carta, quando dá sua opinião acerca de conselhos: “...no fundo, e justamente quanto aos assuntos mais profundos e mais importantes, estamos indizivelmente sozinhos, de modo que muita coisa precisa acontecer para que um de nós seja capaz de aconselhar ou mesmo ajudar o outro, muitos êxitos são necessários, toda uma constelação de acontecimentos tem de se alinhar para que isso dê certo alguma vez.”

Por fim grifo a preocupação do poeta em tentar acender a percepção de Kappus, acerca da importância na habilidade de saber apreciar, lidar e usufruir da tristeza, da solidão, da paciência e do difícil. Na verdade, são temas muito recorrentes nas cartas (são cinco anos de correspondências – 1903 a 1908).
SOLIDÃO
“... ame a solidão e suporte a dor que ela lhe causa com belos lamentos.” (4ª carta)
“... é necessário apenas o seguinte: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, é preciso conseguir isso. Ser solitário como se era quando criança...” (6ª carta)
“É bom ser solitário, pois a solidão é difícil; o fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la” (7ª carta)
“... é tão importante estar sozinho e atento quando se está triste: ... o instante aparentemente parado... está bem mais próximo da vida do que aquele outro ponto, ruidoso e acidental..” (8ª carta)

PACIÊNCIA
“Alegre-se com seu crescimento, para o qual não pode levar ninguém junto, e seja bondoso com aqueles que ficam para trás, seja seguro e tranqüilo diante deles, sem perturbá-los com suas dúvidas nem assustá-los com uma confiança ou alegria que eles não poderiam compreender” (4ª carta)
DIFÍCIL
“... precisamos nos aferrar ao que é difícil; tudo o que vive se aferra ao difícil” (7ª carta)
“ Sabemos muito pouco, mas que temos de nos aferrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará.” (7ª carta)
“... o amor é difícil. Ter amor, de uma pessoa por outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação” (7ª carta)
TRISTEZA
“...avalie se essas grandes tristezas não atravessaram o seu íntimo, se muita coisa no senhor não se transformou, se algum lugar, algum ponto do seu ser não se modificou enquanto o senhor estava triste.” (8ª carta)
“... quase todas as nossas tristezas são momentos de tensão, que sentimos como uma paralisia porque não ouvimos ecoar a vida dos nossos sentimentos que se tornaram estranhos para nós.” (8ª carta)
Obviamente sem nenhuma pretensão crítica, entretanto não tem como não dizer: vale a pena. Eu recomendo!

domingo, 1 de agosto de 2010

Segundo Café - Cartas a um jovem Poeta


O segundo encontro do grupo 'Café com Leitura' aconteceu no sábado, dia 31/07, no Delta Café, no Recife Antigo.

Participaram do encontro: Ana, Glenda, Lila, Manu e Bá. Discutiram sobre o livro indicado por Glenda, na primeira reunião: Cartas a um jovem poeta, de Rilke.

As produtivas discussões levaram a consensos e dissensos que fomentaram resultados mais ou menos consensuados.
As impressões individuais serão elencadas e postadas na sequência.

Próximo Encontro:
Tema:
Cinema
Filme: A estrada. Um drama de 112 minutos, baseado no romance de Cormac McCarthy, vencedor do Pulitzer de 2007. Dirigido por John Hillcoat e tem como elenco: Viggo Mortensen, Robert Duvall, Charlize Theron, Kodi Smit-McPhee, Garret Dillahunt, Guy Pearce.
Indicação: Manuela Duque