quarta-feira, 11 de abril de 2012

Um convite à auto-sinceridade


“A proximidade maior da imoralidade que nos é permitida: estarmos executando nossas mais profundas ordens.”
A princípio, uma leitura atípica, complexa, densa, que em sua natural condução nos leva ao nosso encontro. Inquietante a cada página.
Repudiar com veemência todo tipo de ação ou comportamento limitante que vá de encontro com a nossa verdade maior, com o nosso EU verdadeiro, nossa essência. É assim que Bonder vai caminhando na construção do significado de imoralidade e de alma.
Alma no sentido de “... nada mais do que o componente consciente da necessidade de evolução, a parcela de nós capaz de romper com os padrões e com a moral”. Para Bonder é a alma a nossa essência, o que somos verdadeiramente e seria ela a quem deveríamos atender em sua completude. Porque é ela quem nos leva pra adiante, quem quer nos levar ao nosso melhor, à verdade. É ela quem nos leva mais próximos de sermos mais felizes. E imoral seria tudo que externo à nossa alma, logo também à nossa essência, nos distancia da nossa felicidade, da nossa verdade.
Bonder incansavelmente destrincha sua admiração pela transgressão. Transgressão em seu melhor sentido, o de se aproximar e encontrar a si, indo em sentido oposto às regras, imposições, normas e a tudo mais que nos tenha sido posto dogmaticamente, e que sendo assim, nos limite e aprisione por toda uma vida.
Em suma, um convite à espontaneidade.
Tá recomendado!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Quando a margem é via mestra...

A escolha radical de transgredir, para manter-se fiel a si: eis o convite que nos faz Bonder, em seu livro. Irmanar-nos ao maior dos marginais, o Cristo, que se acompanhou de prostitutas, ladrões, leprosos... para tocar a viva carne da vida, para ser coerente com sua alma, para manter não apenas o conservador corpo (que só quer o imediato bem-estar)...

É assim, desconstruindo verdades que parecem cristalizadas a um olhar pouco arguto e anestesiado, que o rabino Bonder traça seu percurso de descontruir verdades estabelecidas e desautomatizar as percepções, incitando-nos a um exame de desnudar entranhas além da derme e, fatalmente, somos conduzidos à escolha pela via marginal.

E por esta via reconhecemos as opções de outros mestres, por isso foram invocados Lao Tsé e Guimarães Rosa: reconhecida a filiação à linhagem dos permanentes transgressores que assim o fazem para permanecerem honestos consigo mesmos...

assim seja. maktub. oxalá. evoé. oito deitado.

domingo, 1 de abril de 2012

"A alma imoral" no Amoretto

Foi no ambiente clean do Amoretto Coke Shop que nos reunimos ontem, 31/03, para o segundo encontro do Café com Leitura em 2012.


O livro 'A alma imoral' do Nilton Bonder foi o alvo da discussão, mas  Guimarães Rosa e Lao Tsé também entraram na roda. E entre provocações e identificações as horas passaram rapidamente por nós.

Ainda tivemos a participação especial da Martha Perrusi, que aceitou o convite e estará conosco nos próximos encontros. Além de Martha, também participaram da discussão Renata, Ana Carla, Glenda, Lila e Anna Flávia.


Nos dias que virão publicaremos nossos textos sobre a obra. 
 
Próximo encontro: Domingo*, 29/04, às 12h.
Livro: A segunda vez que te conheci, Marcelo Rubens Paiva.
 
 
*Nos próximos dois meses os encontros acontecerão, excepcionalmente, aos domingos.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Falta não significa ausência

O livro estava na minha estante há pelo menos três anos. Quando minha amiga me entregou, disse apenas: leia, você vai gostar. Protelei o quanto pude porque, na verdade, não botei fé no que ela falou. Folheei e joguei-o para o fim da fila.
Com a indicação para o café, pude, finalmente, constatar as palavras dela. Eu não só gostei da história, como me identifiquei com o protagonista em algumas situações.
Por que nossas reações devem ser convencionadas? Por que temos que chorar em determinados momentos e sorrir em outros? Existe lei que nos obrigue a sermos iguais?
Meursault era uma cara que só queria viver e pronto. Não almejava nada além disso. E, de fato, a vida não precisa tornar-se  essa guerra de ação e reação na velocidade da luz que a sociedade nos exige. Que tal dançarmos uma valsa  e não um rock?!
Você pode colocar sua mãe num asilo. Você pode não chorar no enterro dela. Você pode não ser apegado ao trabalho, as pessoas, ao dinheiro. Você pode ser estranho!Cada um tem um tempo, uma vontade e uma forma de expressar, caso queira ou não. E quando a falta de vontade é tão natural dá gosto.
Meursalt pode significar, para alguns, a frieza em pessoa, para mim, ele foi ele, simplesmente. Não havia uma preocupação em ser algo ou alguém. Havia apenas ele e o tempo. Este passando e aquele distraindo-se enquanto isso ocorria. Desse modo, reagindo apenas ao presente, quando inevitável (porque se pudesse evitar, faria), ele foi preso julgado e condenado a morte.
Nesse período entre a prisão e a condenação fiquei na expectativa (na minha lesa visão hollywoodiana das histórias) de uma possível mudança brusca de comportamento, afinal, sua vida estava em jogo. Mas ele foi, surpreendentemente, ainda mais estrangeiro, ainda mais livre. Era um cara muito consciente, mas não sentia obrigação de dividir.

terça-feira, 6 de março de 2012

O estrangeiro e a frieza de sentimentos

Quando iniciei a leitura, diante da frieza de sentimentos, pensei que se trataria de descrição de um personagem com algum transtorno de personalidade ou patologia psíquica. Mas não. O personagem, ao meu ver, é uma caricatura das ideias existencialistas.

Em forma de romance o autor retratou duas fortes ideias existencialistas: o viver somente o presente de cada dia e “ser condenado a morrer”. O estar diante da morte é a principal fonte de angustia e mal estar das pessoas, somente ao se aceitar esta "condenação" é possível se viver mais plenamente e em "paz". 

Lembrei muito do filme Melancolia.

Carla Zambaldi